très belle Mademoiselle Jeanne Moreau




O que nos dirá Jeanne Moreau? - Estava eu pensando assim na segunda fileira da plateia do Odeon, aguardando a presença da atriz em um encontro público por ocasião do Festival do Rio 2009. De repente se forma uma parede de fotógrafos impedindo a minha visão, flashes, flashes, não entendo. Logo começam todos a aplaudir e eu a vejo subindo ao palco do cinema. Sim, aquela mulher mignon, loira, porte elegante, vestida de cores que pareciam sair de uma pintura era Jeanne Moreau, a atriz que fez os personagens mais importantes da minha vida. Ela surge assim. Parecia algo que materializava-se subitamente na minha frente. Jeanne Moreau entrou sorrateiramente sem ser anunciada, nos pegando de surpresa. Foi aplaudida de pé. Meu medo era o de chegar bem perto, tocá-la sem querer e ela se desfazer. Fiquei quietinha na minha cadeira, aguardando os acontecimentos.



Depois de alguns dias cinzentos no Rio de Janeiro, fez um belo sol de céu azul nessa manhã de sábado. Sim, temos que lembrar do céu porque as cores de Jeanne combinavam com ele. Uma blusa verde de seda, uma calça branca, um blaser verde piscina, um sapato branco, o cabelo dourado, uma medalha de prata e pedras. Não só as suas cores mas o infatigável, o inalcançável, o indescritível sorriso de Jeanne Moreau apesar de seus 81 anos. E havia ainda um certo vento deixando tudo leve, como ela é.


O indescritível sorriso de Jeanne Moreau  - com Miles Davis e no vídeo acima em trecho do filme de Caca Dieguez," Joana Francesa".  

Jeanne é leve. Suas cores e seu sorriso nos deixaram uma paz. Sua história nos mostra o que há de eterno nas atrizes. Algo que não é a beleza, não é o corpo, nem a voz. Algo que é uma pessoa inteira, engajada, inteligente, alegre e destemida. Algo que imprime aos personagens essa diferença, e às intérpretes essa trajetória de sucesso e reconhecimento. Nada que possa ser entendido por meio de substantivos, adjetivos, advérbios. Jeanne Moreau não é Diva, nem é celebridade, foge das gramáticas. Isso porque nenhuma literatura poderia jamais descrevê-la em seus papéis. Uma imagem verdadeira não pode ser descrita por palavras.

Jeanne Moreau canta em 1966

Uma das mulheres mais lindas do cinema mundial, com as indisfarçáveis marcas do tempo que Jeanne soube viver muito bem, ainda encontra brecha para confessar como foi encontrar a primeira ruga. Aos 40 anos, em um intervalo de uma filmagem, resolve retocar a sobrancelha, e viu no espelho uma ruga no pescoço: “Merda!” - disse. Dois dias de angústia depois, uma resolução de humildade para que a beleza não se tornasse prisão. Aceitar a vida. “Tenham uma relação boa com a vida” - aconselhou às mulheres da plateia brasileira.

O encontro foi logo aberto ao público, tudo bem informal. Caca Dieguez, que dirigiu a atriz em Joana Francesa de 1975, era o cicerone. O público não foi tão numeroso como pensei. Ocupava somente as cadeiras da plateia, sem chegar aos andares superiores. Jeanne se negou a responder perguntas óbvias, como as sobre “Jules e Jim”, e sobre seu filme preferido. Jeanne não tem filme preferido, os filmes é que a preferem.

                  
Jeanne gosta do verbo “encarnar” para designar o trabalho do ator. Um verbo de cunho religioso, mas que para ela expressa bem o intérprete. Corrige quem a chama de Madame, "Senhorita, por favor. Eu só me casei com o meu pai" – a plateia ri discretamente. E revela que em 2010 vai voltar aos palcos como cantora.

Pediu desculpas publicamente a dois jovens que haviam-na interpelado com perguntas quando ela entrava na sala, e ela não lhes havia dado atenção. E se negou a responder questões pessoais. E sorria. E beijou Caca Dieguez na bochecha esquerda. E revelou não ter sentimentos nostálgicos. E disse que sempre depois de visitar lugares e conhecer tanta gente precisa de uma certa solidão.

“O cinema é como a vida” – disse ela. E eu completo em um quase diálogo de roteiro: “Vida em turbilhão, querida, como aquela canção que você faz bela em “Jules e Jim”.

A vida é esse turbilhão, assim como você,  très belle Mademoiselle Jeanne Moreau.





O Festival do Rio produziu uma mostra exclusiva com alguns filmes com e sobre Jeanne Moreau. Três documentários sobre sua vida, e uma produção que ela fez em 2008. A mostra “Jeanne Moreau - A grande dama do cinema” está detalhada em http://www.festivaldorio.com.br/site2009/filmes/filmes.htm



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