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22 de julho de 2014

SUTURA E VERBO: FLORBELA ESPANCA NO TEATRO





 Uma leitura sobre  a peça "Desalinho".

Para os conhecedores da obra de Florbela Espanca uma peça sobre a poetisa pode parecer uma chance para se estabelecer relações entre a literatura e o teatro e como esses dois campos se alimentam um do outro esteticamente. Para quem não a conhece, se pode pensar que esta seria uma maneira de conhecê-la. O espectador mais comum, aquele mais interessante, aquele que nada espera de um espetáculo, talvez tenha sido levado ao teatro somente pela história que se anunciou - a de um amor impossível entre dois irumãos - ou a perspectiva de experimentar o drama ou o melodrama partindo dos versos de amor e dor da portuguesa que se suicidou aos 36 anos em 1930.

Para todos esses espectadores restou uma certa dose de surpresa depois de assistirem à “Desalinho”, peça de autoria de Marcia Zanelatto e com Isaac Bernat na direção, que esteve no SESC Copacabana e mais recentemente cumpriu uma temporada na Sede das Cias, na Lapa, Rio de Janeiro. Essa dose de surpresa é logo dissolvida em um encantamento ofegante.

Vivemos tempos difíceis de entender na cidade e no mundo, portanto, o teatro talvez tenha a função de nos agitar tirando nossa sensibilidade de um certo marasmo anestésico e, assim,  atiçar paixões para que possamos seguir em frente. Nisto a peça “Desalinho” parece que cumpre um objetivo, ficamos ternos por Florbela, temos vontade de pegá-la no colo e de desatar-lhe as mãos da camisa de força. Entendemos que a loucura do poeta é mais do que qualquer psiquiatria poderia amenizar. Entendemos Florbela e entramos em comunhão com ela naquela busca por liberdade. Ela desloca um certo sentido do que esperamos.

Estas são sensações abstratas que muitas vezes vieram aparecendo quando assistimos ao espetáculo. Sensações que podem ser de todos ou de ninguém mais. O que é de todos é o trabalho de três atores em cena   (Gabriel Vaz, Carolina Ferman  e Kelzy Ecard), especialmente das duas atrizes que se espelham, que se jogam e jogam entre si, que soltam lençóis juntas numa das mais belas cenas da peça. É de todos também um texto altamente poético sem ser piegas e uma direção que soube criar um espírito estético de uma poesia essencial e mínima sem ser melosa ou apelar para o exagero. Seria fatal. A peça alcança um equilíbrio dessas forças entre palavra e gesto e isso é mesmo de todos os espectadores.

Pouco ficará o espectador sabendo da vida ou da obra de Florbela Espanca, a peça não é uma récita de versos da autora muito menos uma colagem com fins de biografias dramáticas. Parte sim de uma essência entre a interpretação de vida e obra, mas que não é uma coisa nem outra.  Uma obra da arte cujo mote é a história não comprovada e muito difundida de que a poetisa teria se apaixonado pelo seu irmão, ambos frutos de uma relação conturbada entre seu pai e mãe (seu pai teve dois filhos com a empregada da casa adotados por Mariana, sua esposa real, que não podia lhe dar herdeiros). Mas em certo momento podemos até pensar, será mesmo essa a Florbela? Ela mesmo diz que se chama Mariana, mas confessa que é a famosa Florbela Espanca. Ela escreve versos e os mostra para a enfermeira que se tornou sua cúmplice. Será mesmo Florbela? Ela lembra de ter matado seu irmão, seria essa a projeção psicótica de morte de um amor? Seria essa a Mariana, sua mãe de criação? Ou uma moça qualquer encarcerada por um amor impossível? Será Florbela uma projeção da própria enfermeira robotizada e obediente? Será Florbela um desejo da enfermeira que de tanto lidar com a loucura encontra na loucura sua única saída?  São várias as perguntas. Não importa. Todas essas mulheres são aquela ali no palco, buscando simplesmente a liberdade que pertence a todos. Um tipo de liberdade que só a arte é capaz de garantir.

Se Florbela Espanca expressou em seus versos todo o desalinho de sua alma atormentada desde a mais tenra idade, se lemos nos seus versos aquele mesmo desassossego de Pessoa, a peça é como uma sutura pois mais do que falar de feridas abertas é a capacidade do teatro em fechar as nossas próprias. E isso é de todos.  Cada um, como Florbela, tem a sua própria linha.

Foto: Virginia Boechat 
Por Andrea Carvalho Stark, julho 2014.

23 de maio de 2013

RENOIR PINTANDO EM 1915

PIERRE-AUGUSTE RENOIR pintando nesse filme raro de 1915, já com as mãos calejadas da doença da artrite reumatoide que o fez viver com dor os últimos anos de sua vida (ele faleceu em 1919).Aqui, nesse breve filme, o seu filho Claude (que depois se tornaria cineasta) aos 14 anos é quem auxilia o pai. Aparece também o responsável pela preciosidade, o cineasta Sacha Guitry.

E quando o jovem Henri Matisse perguntou a ele por que continuava a pintar, Renoir respondeu: "A dor passa, mas a beleza permanece.

23 de outubro de 2012

FIM DO LIVRO - A FEIRA LITERÁRIA DO MORRO DA CONCEIÇÃO

A feira literária do Morro da Conceição foi supimpa. Astral ótimo, programação super organizada, e uma feirinha de livros com preços super em conta, por exemplo, por 10 reais cada comprei "Barthes por Barthes", a "Antologia Pornográfica" organizada pelo Alexey Bueno e as cartas de Tarsila do Amaral para Luis Martins quando ela foi "trocada" pela prima mais jovem... Para ficar quase perfeito, acho que o próximo evento poderia oferecer melhores opções de gastronomia (eram raros os lugares para comer e nenhum aceitava cartão e fecharam antes do fim do evento), e com a segurança no entorno, pois o Centro desertissimo nas imediações da Presidente Vargas e Av Mal Floriano é algo assustador. Fora isso, foi lindo. Sou, geralmente, meio aversa a essas feiras literárias, que mais promovem egos e politicas do que a LITERATURA propriamente dita, mas essa tinha um ar de coisa de casa e de gente legal. Tem tudo pra ser um sucesso incrível nos próximos anos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

ANJO NEGRO, DE NELSON RODRIGUES, EM ÓPERA



Em 1935, NELSON RODRIGUES se encontrou com a contralto GABRIELA BESANZONI LAGE, para uma entrevista publicada no jornal O Globo em 5 de agosto daquele mesmo ano. E ontem Gabriela se encontrou com Nelson mais uma vez em sua casa, na montagem rara e que será histórica da obra de Nelson, ANJO NEGRO - adaptada em ópera por João Guilherme Ripper, sob direção de Andre Heller-Lopes, com cantores brasileiros, maestro brasileiro e a orquestra da OSB Ópera & Repertório - encenad
a no Parque Lage, o mesmo espaço onde um Nelson jovem e com terno muito surrado foi entrevistar a grande Diva em um ensolarado dia de agosto de 1935. O mesmo espaço onde a cantora lírica criou, em 1936, a Sociedade do Teatro Lírico Brasileiro. A música e o teatro mais uma vez rompendo fronteiras do tempo. 

Sobre a ópera, publiquei um breve artigo na revista Cultura.RJ, do portal da

Secretaria Estadual de Cultura do RJ. AQUI :

14 de outubro de 2012

Meus textos na revista Cultura RJ, portal da Secretaria Estadual de Cultura do RJ

Tenho publicado  alguns artigos como escritora colaboradora na revista Cultura RJ, da Secretaria Estadual de Cultura do RJ. Seguem abaixo os links e títulos dos textos que já publiquei por lá:


À memória de João Caetano
Depois de completar 122 anos, a estátua do ator João Caetano foi restaurada e voltou para a frente do teatro que leva o seu nome, na Praça Tiradentes

http://www.cultura.rj.gov.br/artigos/a-memoria-de-joao-caetano



Uma bienal de estreias e justas homenagens
Duas obras de Almeida Prado encerraram magistralmente a XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea. Foi uma bienal de estreias e de homenagens, mas que talvez precise rever o seu formato


Da nostalgia à surpresa em 'O Mágico de Oz'
Do cinema americano ao teatro brasileiro, o musical encanta e faz refletir sobre nossas incursões no gênero




O FOLHETINISTA - minha coluna no site CAUSA IMPERIAL


Estou escrevendo uma coluna intitulada O FOLHETINISTA, no site CAUSA IMPERIAL. Pretendo, duas vezes por mês, escrever sobre temas, personagens e histórias relativas à vida literária, musical ou teatral no século XIX, sempre buscando criar diálogos com o nosso tempo presente. O primeiro saiu hoje, Á memória de João Caetano. É sobre o ATOR JOÃO CAETANO E O RETORNO DE SUA ESTÁTUA PARA A FRENTE DO TEATRO QUE LEVA SEU NOME, NA PRAÇA TIRADENTES. ACESSE PELO LINK E COMENTE PELO FACEBOOK 
http://www.causaimperial.org.br/?p=2027

* A foto acima é um recorte que fiz sobre a foto de Theodora Duvivier, retratando a estátua no dia de sua reinauguração pós-reforma.

12 de agosto de 2012

metáfora




numa época em que homens e mulheres se iludem perante sua própria pressa e ambição,  saber-se alguém equilibrado e sem grandes sílabas tônicas parecia, verdadeiramente, a grande felicidade. Mas não. Lucy nunca deixava de se espantar perante a sua terrível inação diante dos sonhos e desejos. Agia mas não o suficiente para andar , .um inatismo. Quando descobriu essa palavra (inatismo)  passou a usá-la para se mover mas mesmo assim não. Era diferente a vida a cada palavra que ela encontrava e via que ali poderia estar. Mas isso tudo não quer dizer que Lucy era uma poeta. Não era mesmo. justamente por essa intimidade com os significados  que ela julgava tão definitivos, ela não conseguia construir uma sequer metáfora e é disso que os poemas vivem, é disso que eles nascem, e saem para a vida volátil de poema; é isso, o que tenta alcançar algum sentido. Lucy os tinha todos e por completo. Também tinha olhos graúdos, cabelos lisos e longos quase cinturando e pernas longas, em corpo magro. Era uma bela mulher.


23 de junho de 2012

parte 1 * FATE *


FATE -  Letícia, leite, lírio, rio que me navega do tudo ao impossível. O que faria um homem como eu, com tantos verões e invernos, a não ser te dizer, nesta hora de melodia, que saudades de você, Letícia. Não me procure, não me pergunte nem me torture com seus porquês. Não me tome por distraído, frio, voluntarioso, estabanado, ansioso e inconseqüente, eu só quis alguma paz, esse pensamento fixo e firme por alguém, esse anima, essa memoração constante, essa vontade de dizer, de com-partilhar uma solidão brusca e povoada, dizer simples dos recentes fatos – fui despedido, estou relendo o Rosa, descobri uma poesia do Lorca, el amor en el pecho del poeta, ouvi teu nome da boca de um amigo, ouvi o Rota, comprei uma roupa branca e outra colorida,dois DVDs do Fellini,  me mudarei esse ano, talvez para o subúrbio, talvez para o sertão. Estou bronzeado de sol. Passei natal e ano novo em Macaé. A quem se pode dizer certas coisas e sentir que tais coisas são realmente ditas? Tudo tem outro sentido. Mas quando sozinho fico, nos domingos, nos vinhos, licores, nos intervalos, nas audições de certo cancioneiro em certo teatro, me torno fraco e sucumbo e choro. E vem a vontade de ser distraído. Você, Letícia, não soube lidar também, para que falar de coisas tão fáceis de se acreditar? Você sustentaria, pela anima do seu próprio desejo e fantasia, pela mulher que só era comigo, eu não, mas não sabia de mim o que eu sentia além do que dizia. Eu tentei nos salvar algumas  vezes. E você não deixou, não me ajudou. Eu não me culpo nem me arrependo, mas quero te dizer a palavra “nunca”. Entretanto, saiba que se me vires por acidente, a  qualquer momento, dobrando qualquer esquina haverá ali, naquele homem, um algo que é seu. É difícil fechar a porta, a tampa, a janela. Isso ninguém tira, por mais que eu deixe entrar alguém, é algo intocável e muito distante de se alcançar. É coisa somente minha como as doenças que impõem ao corpo, e às vezes à alma, certas limitações.

Leticia leite lírio rio como fui feliz. Para agora não ser seu homem, seu amante, seu marido, nem seu amigo, nem seu conhecido, nem sua mágoa, nem seu escritor favorito, nem nada mais. Para agora ser um nome proibido e escondido. O sol vai acabar e não assistiremos a seus derradeiros momentos, querida. Eu teria me encontrado com Silvana naquele dia. E, depois desse ato de enorme coragem e crueldade, talvez eu tivesse visto o mais belo sol da minha vida. E o anagrama de nossas idades nesse ano ainda me sugere um mistério. Adeus, Letícia, lírio, leite, rio que me leva a terras sempre impossíveis.




Letícia, constantemente eu passo pelos lugares. São lembranças descomportadas, são lembranças, Leticia. A diferença mais cruel entre um homem jovem  para um já com uma dezena de anos é que no começo da vida todos os lugares estão para ser inaugurados como todas as páginas de um caderno  estão ali para serem escritas. Nada há. Leticia, e a gente vai escrevendo sem sabermos que tudo que se faz é a  nossa única narrativa. Na esquina, te abracei. Naquela outra, te beijei, e lá bem naquela marquise eu senti tua mão na minha. Eu não sinto mais. E passo pelos lugares como alguém que escreve um livro que não leu. E não adianta ir embora da cidade porque onde quer que eu esteja e me lembre daquela esquina, e daquela marquise, ficará naquele lugar estranho aquela mesma esquina e aquela mesma marquise e pensarei: aqui pela primeira vez me lembrei da marquise onde eu peguei a mão de Leticia pela primeira vez. Não tem como fugir. Vários lugares dessa cidade contam e recontam nossa história mas só eu os leio. Tem vezes que gritam, batem nos ouvidos. O que me resta fazer? Passo adiante e deixo as lembranças para trás. Finjo cinicamente. Todos os lugares é um livro que não quero abrir. É assim que meu mundo se transformou em uma grande biblioteca. 

5 de maio de 2012

lua

Lua 

A lua bate portas e janelas
chamando por teu nome
impossível e monossílabo. 

Você a escuta e atende
Das casas, do mar e da terra 
Dos campos floridos ao léu
Das músicas que deixaste
Pelo pouco que disseste. 

A moça na esquina
Espreita a casa de Van Gogh. 
Amarela não é mais
Casa não é mais
Mas era como se o visse

Está nua
Espera que você a desenhe
Aconselhando versos e rimas
A alguém que por natureza
Nunca sabe por onde existir

A moça está vizinha
Sobre o teto da casa
Pairando feito nuvem
Que apesar de esconder a lua
jamais deixa sua luz partir.

O céu se ilumina
A lua se enche
Busca outro lado do mundo
como se bastasse 
quando todas as coisas
estacionaram no tempo .

Quando vias a lua
pelas ruas escuras
daquela que lhe foi sua. 

Nessa lida estranha
jamais ato de lua e nuvem
noite fria e sem esperança
feito obra expressionista
que nunca se fez vida

Inútil tentativa de escape
chamando por teu nome
Impossível e monossílabo: 

Lua.

Stark, 5 maio 12

4 de dezembro de 2011

blues

esse poema é azul
olho na luz do dia
azul como coisa
que é marinha
azul como água
de cor não havia

esse poema é azul
como tantos comos
ao redor do azul

esse poema é azul
como azul é a música
dos seus dedos
repletos, inexistentes
tocando um piano azul
quando a chuva vem

esse poema é azul
pois se fosse cor
outra não haveria

esse poema é blue
triste e sem jeito
deveria ser  blues
mas saiu poema
na impotência
do que se quer

esse poema não existe
pois o mar o levou
antes de escrevê-lo.

6 de novembro de 2011

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antes da palidez
dos amores tãos


andrea carvalho stark, 2006

1 de novembro de 2011

ÁRIA ROMÂNTICA



 antes  de ciúmes
 queixumes
damas e cavaleiros
 nas frestas
 festas camarotes lisonjeiros

damas e cavaleiros
 entre valsas e cabaletas
 nas sarjetas sarjas blusas
 e saias corpeletes
 nos bailes nos bailes

 valsam escudos
 dançam milagres
 vazam segredos
de janeiro em janeiro

 por todo o rio inteiro
 janeiro janeiro
 rimas imperfeitas
 cavaleiros e damas
 valsando de pés nus
 sem ninguém perceber

 haveria haveria
 repetições de bobagens
 que poderiam poderiam
 completar um anti-enredo
 do romance concretista

 um enredo um enredo
 de segredo a segredo
 é tudo ária
 árida ária ar arenoso
 soprano res-moço res-moço
 de uma dama personagem
 dessa ópera romântica
 morta inválida falida.

andrea carvalho stark

25 de outubro de 2011

There are places I remember all my life, though some have changed



rest in Peace, dear John

though some memories could never leave us, though and lest we forget, John

let me wait for the unnoticed, the impossible is bringing me into terms

That is the deal

That is all, or...

wanna dig a hole in the sky
wanna go up and up, never down

wanna, gotta, oh no.

you´re not a hope anymore

not a dream

nothing

your body unmoved to the breeze, although the breeze keeps calling you whenever it whispers

you cannot answer cause you´re not there, John

you´re nothing but a dream

I cried John

John, have you cried?

19 de setembro de 2011

STONES NEVER DIE

he´s so kind
so kind
I wanna be his valentine
´cause he´s so kind,
so kind

wish I were his Paradise

his body is music
as this verse

in the sky

a verse lives longer
as stones never die

he´s so  kind,
so  kind
wish I were his Paradise




18 de setembro de 2011

A MOURNING SONG


Mary thinks about John
with joy, pain, despair, regret
and wishes he could be dead
but no! - Mary thinks about
why so? - Mary worries about

Mary sings sadly
a morning song
on a sunny day

marry, mary, merry
strawberry

Mary is mourning
a merry song
for John´s sake

5 de setembro de 2011

QUEDA QUE AS MULHERES TEM PELOS TOLOS






Encontrei esse exemplar texto histórico e tão atual sobre as relações amorosas, traduzido pelo nosso Machado de Assis. Originalmente publicado em francês, de autoria de Victor Hénaux, o ensaio - QUEDA QUE AS MULHERES TEM PELOS TOLOS - foi por muito tempo considerado obra original do nosso escritor brasileiro. A descoberta de sua verdadeira autoria, realmente, não diminuiu as interessantes teses defendidas.


"Há uma época em que se custa muito amar. Tendo visto e estudado um pouco a mulher, adquire-se uma certa dureza que permite aproximar-se sem perigo das mais belas e sedutoras. Confessa-se sem rebuço a admiração que ela inspira, mas é uma admiração de artista, um entusiasmo sem ternura. Além disso, se ganha uma penetração cruel para ver, através de todos os artifícios de casquilha, o que vale a submissão que ela ostenta, a doçura que afeta, a ignorância que finge. E prenda-se um homem nessas condições! De ordinário é entre trinta e trinta e cinco anos que o coração do homem de espírito fecha-se assim à simpatia e começa a petrificar-se. É, entretanto, possível que nele tornem a aparecer os fogos da mocidade, e que ele venha a sentir um amor tão puro, tão fervente, tão ingênuo, como nos frescos anos da adolescência. Longe de ter perdido as perturbações, as apreensões, os transportes da alma amorosa, sente-os ele de novo com emoção mais profunda e dá-lhes um preço tanto mais elevado, quanto ele está certo de não os ver renascer. Oh! então se lastima o pobre insensato! Ei-lo obrigado a ajoelhar-se aos pés de uma mulher, para quem é nada o mérito de caminhar pouco a pouco atrás de sua sombra, de fazer exercício em torno dos seus vestidos, de se extasiar diante de seus bordados, de lisonjear os seus enfeites. Ai, triste! Esses longos suplícios o revolta, e, Pigmalião desesperado afasta-se de Galatéia, cujo amor se não pode reanimar.Esses sintomas de idade são desconhecidos ao tolo, porquanto cada dia que passa não lhe faz achar no amor um bem mais caro, ou mais difícil a conquistar. Não tendo sido melhorado, nem endurecido pelos revezes da vida, continuando a ver as mulheres com o mesmo olhar, exprime-lhes os seus amores com as mesmas lágrimas e os mesmos suspiros que lhes reserva para pintar os antigos tormentos. E como ele só exigiu sempre delas aparências de paixão, vem facilmente a persuadir-se que é amado. Longe de fugir, persevera e... triunfa."

28 de agosto de 2011

A VITROLINHA, CLARICE LISPECTOR E O NAPSTER



HOJE vi uma VITROLA sendo vendida a 850 reais na Rua Sete de Setembro, o que vai me possibiltar ouvir o DISCO ( também conhecido como vinil ou LP ou bolacha pros mais antigos... ) de 78 rotações que minha mãe gravou quando era cantora de rádio em 1960. E também tem 45 e 33 rotações, o que vai me fazer ouvir outras coisas antigas que tenho aqui, salvas a cada mudança de casa, pois eu fui jogando fora os discos pra aliviar o peso das caixas... Salvei: um disco do SILVIO CALDAS num show inédito na Rádio Nacional, uma coleção do Villa Lobos numa caixa linda e que tem a BIDU SAYÃO e os discos dos Mutantes e uns do Hermeto, uns da Berliner Philamorniker e mais umas coisas do ABBA e do JOHNNY MATHIS (alguém conhece esse aí?), umas trilhas de novela - o ANJO MAU, ROQUE SANTEIRO, e outras coisas. A Vitrola também toca CD e cassete, então, vou ouvir um CASSETE que tenho com a ANOUK AIMEE interpretando o texto da Clarice Lispector, em tradução para o francês, LA PASSION SELON G.H.Não estava com dinheiro nem cartão na hora, mas no sábado eu volto lá pra comprar.

INTERESSANTE essa DISCRETA retomada. A indústria fonográfica depois de cometer o MICO do século dizimando o VINIL, agora tenta ressuscitá-lo. Com a crescente velocidade de transmissão de dados pela Internet nos últimos 15 anos, coisa imprevisível quando surgiu o CD, a troca de música se intensificou, as vendas cairam, na mesma medida em que ALTOS executivos perderam seus ALTOS empregos.

Tudo é indústria, tudo é comércio, tudo é dinheiro. Ou será tudo amor ou sexo? Pois me disseram que o NAPSTER, o primeiro grande boom de compartilhamento de músicas pela internet, surgiu depois que um rapaz, querendo fazer charme a uma moça mandando músicas pra ela, descodificou digitalmente um CD e soltou as músicas e as botou na rede. Depois disso, só história que todos vocês já sabem. Se ele ficou ou não com a moça , eu não sei. Se não ficou, foi uma tremenda injustiça.  

Como não sou esse tudo, e pouco me interessa a indústria e seus altos executivos, sou toda a música que vou ouvir chiadinha do jeito bem antigo. Vou assim ouvindo algumas outras coisas que a digitalização não soube preservar, principalmente nos clássicos. Sem abandonar meu IPOD que me dá trozentas mil músicas aleatórias e eu gosto disso também.

Mas é bem mais bonita a vitrolinha, naquela estrutura de madeira, do que aqueles aparelhos de som preto, cheios de luz e potência de milhões de decibéis...

NA IMAGEM, a bisavó da vitrolinha: uma eletrola em 1928.

BENDITO LOUVADO SEJA, É O ROSÁRIO DE MARIA.




VÓ MARIA DO JONGO DA SERRINHA, REINAUGURAÇÃO DA PRAÇA TIRADENTES.
Foto de Andrea Carvalho Stark

11 de julho de 2011

RESISTÊNCIA E RETENÇÃO



Sossegue, fique na sua, cale-se, espere, não provoque. O que você quer afinal? O que você quer? O que você quer? Afinal? Ou ficção ou um adeus. Impossível. Cale-se, fique quieto, silêncio, recolha-se, enxergue-se no espelho d´água, devolva-te, não provoque, não provoque. Não comece tudo de novo. Ave Maria. Vamos rezar a Deus, nosso senhor. Não é possível. Não ouse. Não ouça. Não se derrame. Não se debruce. Não escreva. Não responda. Não veja. Cegue-se. Não me siga. Por favor. Devagar. Não acelere. Não chegue perto. Você não existe. Afaste-se. Longe. Quieto. Invisível. Impossível. Coloque uma mordaça na boca. Uma algema nas mãos. Prenda-se. Adeus.


22 de maio de 2011

um corpo em cena ou o que o corpo significa

english version bellow




Nudez total! Todo prazer
Provém de um corpo
(como a alma sem corpo)
sem vestes.
John Donne, Elegia XX,
tradução de Augusto de Campos




Talvez devêssemos começar por uma negação: sobre o que corpo não é, sobre o que ele não apresenta. O corpo não é um conforto. O corpo não é um equilíbrio. O corpo não apresenta afirmações. Nos esforçamos para afirmá-lo, seja através da arte, do desejo, da fantasia. Mas seu destino é sempre ser uma negação. E um conflito.


Pois devemos mesmo é começar do corpo ao falar da arte em relação a esse tema tão vasto - sexo - e, contrariamente, visto ainda sob restrições.


"A sexualidade humana é essencialmente traumática", diz Joyce Mac Dougall. Talvez toda arte produzida sobre esse tema ou não seja um esforço para superar o trauma. É um quebra-cabeça no qual somos lançados sem escolha. Tentamos sobreviver e ganhar algum fruto (uma maçã talvez).


O erotismo é definido como uma intenção de sensualidade, mas em um mundo calcado na banalidade, onde a rotinização da transgressão acaba destruindo a real possibilidade da transgressão, como pensou Michel Foucault, o que significa isso? Arte erótica: duvido deste gênero.


Ao pensar sobre as relações entre arte e sexo, primeiramente nos vem a mente toda a literatura escrita por mulheres do século passado. Mulheres malditas, transgressoras, literatura sem legitimação cultural na época em que foram produzidas. Interessante como a arte que lida com a palavra escrita trabalhou esse tema. Na literatura escrita por mulheres, a voz poética é denunciadora da interdição ao sexo e ao prazer. Essa é a linha de investigação considerada por Nelly Novaes Coelho no ensaio "O erotismo na literatura feminina do início do século XX, da submissão ao desafio ao cânone".


A ensaísta investiga a obra de Colombina (São Paulo), Gabriela Mistral (Chile), Gilka Machado (Rio de Janeiro), Juana de Ibarbourou (Uruguay) e Florbela Espanca(Portugal), escritoras nascidas na década de 1910, em contextos e lugares diferentes. Elas, segundo Coelho, "pioneiramente, se assumiram como transgressoras do cânone fundante da civilização cristã-burguesa: o interdito ao sexo." Acrescenta ainda: "o desafio primeiro que todas elas lançaram ao "interdito ao pecado da carne" foi o de assumir o pecado, como um mal ao qual era impossível resistir".


Também lembro da Ilha dos Amores (IX, 68-95) do poema épico "Os Lusíadas" (1572) de Luis de Camões.


Nesse momento do épico, Vasco da Gama e seus nautas regressam a Portugal de sua viagem para a Índia. A Ilha dará a "recompensa" que merecem pela viagem bem sucedida. O encontro dos Portugueses e as Ninfas é pautado na sensualidade: Deusas nuas estão se lavando e quando os homens se aproximam, elas se escondem porém "aos olhos dando/ O que às mãos cobiçosas vão negando":


Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam;
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Hüas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando.(IX, 72)


O prêmio é o prazer. Nesse cenário mítico, os Portugueses seduzem as Ninfas e conquistam o sexo, como as terras descobertas. O soldado Leonardo busca sua Ninfa, apesar de um destino de má sorte no amor:


Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme prossuposto
Ser com amores mal-afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu Fado ter mudança;


Quis aqui sua ventura que corria
Após Efire, exemplo de beleza
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a Natureza.
Já cansado, correndo, lhe dizia:
«Ó fermosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma! (IX,75-76)


Desfazendo-se em "puro amor", a Ninfa se rende ao soldado, cujo destino se modifica:


Já não fugia a bela Ninfa tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ti ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto já, sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor. (IX, 82)


Os "Sonetti Lussuriosi" (1525) de Pietro Aretino (1492-1556) é uma poesia que não traz a perplexidade do amor-paixão. Conforme diz José Paulo Paes, tradutor e autor do ensaio crítico da edição brasileira dos "Sonetti":


A voz que ouvimos nos "Sonetti Lussuriosi" não é a voz da Cabeça, a comprazer-se em elegâncias metafóricas para manifestar os desconcertos, perplexidades e insatisfações do amor-paixão, mas a voz do Corpo recorrendo à brutalidade do grito para extravasar as larvas do amor-luxúria.


A voz poética é associada ao prazer, utilizando-se de um vocabulário chulo como elemento próprio da composição literária. Se considerarmos essa característica sob os paradigmas culturais da Renascença italiana, muito entenderemos aquela realidade: o possível de viver e impossível de dizer em meios que não sejam o escárnio e o humor:


Tens-me o pau na boceta, o cu me vês;
Vejo-te o cu tal como ele foi feito.
Dirás que do juízo sou suspeito
Porque nos pés eu tenho as mãos, em vez.


Mas se em tal modo de foder tu crês,
Confia em mim, assim não será feito,
Porque eu na foda bem melhor me ajeito
Se meu peito do teu sente a nudez


Ao pé da letra quero-vos foder
O cu, comadre, em fúria tão daninha
Com dedo, com caralho e com mexer,


Que vosso gozo nunca se definha.
Pois não sei que é dulcíssimo prazer
Provar deusas, princesas ou rainha?


Mas direis, escarninha,
Que embora eu seja em tão mister sublime
O ter pouco caralho me deprime.
(Soneto 7, tradução de José Paulo Paes)


John Donne(1572-1631) está distante desse escárnio e humor lascivo dos "Sonetti" de Aretino, especialmente a "Elegia XX. Indo para o leito". Deste poema, com a tradução magistral de Augusto de Campos (que utilizaremos nas citações abaixo), Péricles Cavalcanti compôs uma música, interpretada por Caetano Veloso deliciosamente no álbum "Cinema Transcendental".


Mas o poema é mais comovente do que a canção. John Donne foi um religioso inglês, padre da igreja anglicana, deão da catedral de São Pedro em 1621. Um dos poetas metafísicos trazidos ao século XX por T.S. Eliot. Na poesia de John Donne, uma das características é o êxtase explicitamente sexual, construído através de jogos de palavras associados à metáforas incomuns.


Nesse poema, a mulher é comparada à nova terra - a América - virgem, cheia de mistérios, nua, por onde mãos errantes exploram no desejo de conquista:


Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz que um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império!
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo,
Onde cai minha mão, meu selo gravo.


A mulher, matéria do amor carnal, também é um livro místico, e para poucos fornece/ permite a sua leitura/prazer:


Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.


Na literatura brasileira contemporânea impossível não citar Hilda Hilst (1930-2004). A poetisa que estabelece os lugares do corpo e da alma no poema "Do desejo":


E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.


Como saída às intermináveis recusas de editoras em publicar sua obra dita "séria", a escritora lançou-se nesse tema no início da década de 90, escrevendo uma trilogia: "O Caderno Rosa de Lori Lamby" (1990), "Textos Grotescos" (1990) e "Cartas de um Sedutor" (1991).


"O Caderno Rosa de Lori Lamby", uma "divertida bandalheira" (segundo definição da autora),é um romance em primeira pessoa narrado por uma menina de 8 anos que escreve em seu diário (o caderno rosa) sua fantasia imaginativa sobre sexo, absorvendo influências de seu pai, um escritor de contos eróticos. O polêmico romance foi adaptado para teatro (com a atriz Iara Jamra) e para o cinema pelo diretor Sung Sfai em 2005.


São fantasias da menina ou de nós mesmos? A espetacular construção literária de Hilda Hilst nos provoca essa pergunta. A garota parece brincar com a imaginação, misturando realidade, alguma informação e fantasia. A excitação é nossa, não dela:


Eu contei pro papi que gosto muito de ser lambida, mas parece que ele nem me escutou, e se eu pudesse eu ficava muito tempo na minha caminha com as pernas abertas mas parece que não pode porque faz mal, e porque tem isso da hora. É só uma hora, quando é mais, a gente ganha mais dinheiro, mas não é todo mundo que tem tanto dinheiro assim pra lamber. O moço falou que quando ele voltar vai trazer umas meias furadinhas pretas pra eu botar. Eu pedi pra ele trazer meias cor-de-rosa porque eu gosto muito de cor-de-rosa e se ele trazer eu disse que vou lamber o piupiu dele bastante tempo, mesmo sem chocolate. Ele disse que eu era uma putinha muito linda. Ele quis também que eu voltasse pra cama outra vez, mas já tinha passado uma hora e tem uma campainha quando a gente fica mais de uma hora no quarto. Aí ele só pediu pra dar um beijo no meu buraquinho lá atrás, eu deixei, ele pôs a língua no meu buraquinho e eu não queria que ele tirasse a língua, mas a campainha tocou de novo.


Recentemente uma polêmica entre o diretor José Celso Martinez Correa e o ator Paulo Autran esteve nas páginas do jornal Folha de São Paulo. Tudo começou quando em uma entrevista("Autran não perdoa ninguém e agrada a todos" , Ilustrada, 30/11/2005), o ator declarou que não achava que dois atores se masturbando em um palco era teatro, em referência ao espetáculo "Os Sertões", do diretor José Celso e seu grupo Uzyna Uzona


José Celso é um diretor visceral, corajoso, e por isso tudo, polêmico. Independente se há ou não orgasmos no palco, nus ou o que quer que seja, seus espetáculos são capazes de nos tirar fora de órbita (eu já me encontrei com Dionisius em uma de suas peças: "As bacantes").


Paulo Autran é um ator respeitado no Brasil, pelo seu trabalho no teatro, no cinema e na televisão. Um cânone da arte da interpretação cuja carreira já é um capítulo na história do teatro brasileiro nos últimos 50 anos.




A peça de José Celso é adaptação de um livro que narra a guerra de Canudos – "Os Sertões"de Euclides da Cunha - conflito no sertão de Alagoas entre a recente declarada República e um grupo de religiosos liderado por Antonio Conselheiro. Euclides da Cunha era repórter na ocasião e narrou em livro o que viu e viveu.


José Celso (em Folha de São Paulo - Réplica: Quem tem medo de masturbação masculina? - 12/12/2005) responde a Autran, revelando que o ator, apesar de não ter assistido ao espetáculo, se detém somente no "tabu da masturbação":


(...) no tempo da duração fugaz de um gozo, uns três minutos numa peça de seis horas: "A Luta 2". Mariano Matos, grande jovem ator, cria uma obra de arte de atuação com a personagem do seu soldado acordando no meio de um sonho de amor, atacado pelos jagunços e atingido no momento de sua "petite mort", o gozo.


Usar a temática sexual só para chocar, atualmente, é uma escolha ingênua. Certamente, não foi essa a intenção de José Celso. Como ele bem explica:


A divina masturbação para Jean Genet, para nós, é totem. Está na base de todo trabalho do subtexto livre e soberano do ator de gênio, que sabe provocar sua imaginação a partir dos seus prazeres, sonhos e desejos mais viscerais e livres. Quem sabe praticar a oração meditação, a masturbação, começa a se conhecer, saber de seu desejo, sabe dar espírito, alma ao seu Eros, fazer passar por seu corpo o corpo das personagens e dar-lhe o mais precioso, seu tesão elétrico, para que a personagem seja dada sensual, táctil, teatral, livre e viva para o público.


Mas o diretor arrisca-se em um caminho perigoso, a platéia pode captar um subtexto dúbio. Representar qualquer metáfora sexual em um mundo cujos olhos e sentidos já estão acostumados às mesmas mensagens, anestesia nossa sensibilidade à beleza/sentido que se pode exprimir. O desafio é inaugurar novos significados para o que já está vazio de significado.


Quem não segue por esse caminho dúbio é a diretora Ana Kfouri. Em "Volúpia", em cartaz no Brasil entre 1998 e 1999, a diretora partiu de uma série de autores diversos que escreveram - de uma forma ou outra - sobre sexo, para criar um espetáculo forte que não se entregava ao lugar comum. "Volúpia" faz parte dos sete pecados capitais que a diretora pretende levar ao palco, já houve as encenações "Gula" e "Preguiça". "Ira" é o pautado para 2007.








Agora Kfouri está em cartaz até 29 de janeiro de 2006, no Sesc Copacabana, RJ, com "Esfincter", e a sua Companhia Teatral do Movimento. A partir dos textos "Carta aos Atores" e "Discurso aos Animais: A Inquietude", do autor francês Valère Novarina, a encenação de Kfouri serve à proposta do autor: o teatro como lugar onde se percebe as palavras e a fala como um corpo, mas não mais aquele visto como instrumento de expressão - e sim um corpo movimentado e sangrado por seu próprio mecanismo interno.


Segundo a diretora, há a intenção de intensificar as possibilidades de relação entre o artista e o público e potencializar a comunicação entre eles. Ao certo, deseja ela comunicar um certo "sentimento de realidade".


Nos espetáculos de Kfouri, corpos nus em cena e palavras pungentes é um procedimento ou como diz Henry Miller sobre a obscenidade na arte: "o elemento deliberado que nela [na arte] se encontra nada tem a ver com a excitação sexual, como é o caso da pornografia. (...) Seu fito é despertar, comunicar um sentimento da realidade".


A arte precisa trazer a expressão desse sentimento. É um lugar onde podemos obter uma experiência, provocando os sentidos em uníssono, mesmo falando de política ou de cotidianidades.


Segundo Pablo Picasso:


A arte nunca é casta. Deveriam mantê-la longe de todos os inocentes ignorantes, nunca permitindo o contato com aqueles que não estão suficientemente preparados. Sim, a Arte é perigosa. Onde é casta não é Arte.


Ou se não excita o corpo à mover-se, através da provocação e percepção de sentidos, não é arte que se preze.


Imagem do topo: Pablo Picasso, Phallus and nude,1903
Demais imagens: Renato Carrera e Ana Paula Bouzas na peça de Ana Kfouri,  "Esfincter"
Cena de "Os Sertões" de José Celso Martinez Correa


 ©2006 Andréa Carvalho Stark,todos os direitos reservados
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WHAT THE BODY IS
BY Andrea Carvalho Stark


Full nakedness! All joys are due to thee
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys
John Donne, Elegy XX


Perhaps we should start with a denial: what the body is not, what it does not perform. The body is not a comfort. The body is not an equilibrium. The body does not perform assertions. We make an effort to affirm it, through art, desire, fantasy. But its fate is always a denial. And a conflict.


Therefore we should start from the body to think about art regarding this vast subject - sex - and, contrarily, which is still under restriction.


"Human sexuality is essentially traumatic", says Joyce Mac Dougall. Perhaps all art produced about it is an effort to overcome the trauma. It is a puzzle in which we are thrown without choice. We try to survive and get a fruit (an apple maybe).


Eroticism is defined as an intention of sensuality, but in a world compressed in banality, where the commonness of transgression destroys all the real possibilities of transgression, as Michel Foucault said, what does it mean? Erotic art: I doubt it.


Thinking about the relation between art and sex, what first came to my mind was all the literature written by early 20th century women. Damned women, transgressive women, literature without cultural legitimacy in the time it was produced. In the literature written by women, the poetic voice reveals the prohibition to sex and to pleasure. Nelly Novaes Coelho considers that in the essay "O erotismo na literatura feminina do início do século XX, da submissão ao desafio ao cânone".

She examines the work of Colombina (São Paulo), Gabriela Mistral (Chile); Gilka Machado (Rio de Janeiro); Juana de Ibarbourou (Uruguay) and Florbela Espanca (Portugal), all writers born at the beginning of the 20th century in different cultural environments. They, according to Coelho, were the first to presume themselves "as transgressive writers in the original canon of the Christian bourgeois civilization: the prohibition to the sex." Coelho also says: "the first challenge they aimed at was at the 'sin of the flesh' assuming it as an evil thing but impossible to resist".


I also remember the Isle of Love episode (IX, 68-95) from the Luis de Camões epic poem "Os Lusiadas" (1572).


At this moment in the epic, Vasco da Gama and his crew are returning to Portugal, after their journey to India. The Island gives them all the reward they deserve for the successful journey. The meeting between the Portuguese and the Nymphs is based on pure sensuality: naked goddess are washing themselves and when the men approach they go to the forest to hide but their eyes offer what they deny to the men's hands:


Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam;
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam.
Hüas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando.(IX, 72)


They are awarded with pleasure. In this mythic place they seduce the Nymphs and conquer sex as conquering new lands. The soldier Leonardo fights for his Nymph despite his unlucky fate in love:


Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto,
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme prossuposto
Ser com amores mal-afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu Fado ter mudança;


Quis aqui sua ventura que corria
Após Efire, exemplo de beleza
Que mais caro que as outras dar queria
O que deu, pera dar-se, a Natureza.
Já cansado, correndo, lhe dizia:
«Ó fermosura indigna de aspereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Espera um corpo de quem levas a alma! (IX,75-76)


Through "pure love" the Nymph surrenders herself. Love changes fate, it is the redemption:


Já não fugia a bela Ninfa tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ti ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto já, sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor. (IX, 82)


The Pietro Aretino (1492-1556) "Sonetti Lussuriosi"(1525) is poetry that does not bring the astonishment of love and passion. According to José Paulo Paes, translator and author of the Critical Essay in the Brazilian edition of the "Sonetti" :


The voice that we hear in the "Sonetti Lussuriosi" is not the voice of the Head, pleasing itself in metaphorical elegance to express astonishment, perplexities and dissatisfactions of love and passion, but it is the voice of the Body appealing to the brutality of the shout to throw the lava of love and lust.


The poetic voice is associated with pleasure by using vulgar vocabulary as an element of the poetic composition. If we consider the paradigms of the Renaissance Italian culture, it reveals a lot about that reality - there are possible things to live, and possible to say in a mock and humorous way:


Tu m'hai il cazzo in potta, in cul mi vedi.
Ed io vedo il tuo cul com egli è fatto,
Ma tu potresti dir chío sono um matto
Perchè tengo le man dove sta i piedi.


Ma s'a cotesto modo fotter credi,
Credilo a me, che non ti verrà fatto,
Perchè assai meglio al fottere io m'adatto
Quando col petto sul mio petto siedi.


Vi vuo'fotter per lettera, comare,
E vuo'farvi nel cul tante ruine
Colle dita, col cazzo e col menare,


Che sentirete un piacer senza fine.
Io non so che più dolce, che gustare
Da Dee, da Principesse e da Regine?


John Donne(1572-1631) is far from the humor and mockery of Aretino's "Sonetti", specially his "Elegy XX. To his mistress going to bed". This poem (with the Augusto de Campos wonderful translation to Portuguese) inspired Pericles Cavalcanti to compose a song, deliciously performed by Caetano Veloso in the album "Cinema Transcedental".


But the poem is more moving than the song. John Donne was an English churchman, a priest of the Anglican church, named dean at St Paul's cathedral in 1621; one of the metaphysical poets brought to the 20th century by T.S. Eliot. In the poetry of John Donne there is the explicit sexual ecstasy of love and passion, built with dazzling wordplay associated with uncommon metaphors.


In "Elegy XX", the woman is compared to the new land - America - a virgin, full of mysteries, naked, on which wandering hands exploit the desire of conquest:


Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann'd,
My mine of precious stones, my empery ;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.


The woman, object of the carnal love, is also a mystic book, and only to a few allows/gives her reading/pleasure:


Like pictures, or like books' gay coverings made
For laymen, are all women thus array'd.
Themselves are only mystic books, which we
-Whom their imputed grace will dignify-
Must see reveal'd. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself ; cast all, yea, this white linen hence ;
There is no penance due to innocence:
To teach thee, I am naked first; why then,
What needst thou have more covering than a man?


In contemporary Brazilian literature we cannot forget Hilda Hilst (1930-2004) ─ the writer who identifies the places of the body and of the soul in the poem "Do desejo" (About desire):


E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.


(And why would you like to have my soul/ In your bed?/ We said rough, delightful, liquid,/ Obscene words, because that was the way we liked it./ But I did not lie about cummings pleasure lasciviousness/ Neither I omitted that the soul is beyond, seeking/That Another. / And I repeat to you: Why would you like to have my soul in your bed? /Be happy with the memory of coupling and statements. / Or try me again./ Oblige-me.)


As answer to the uncountable publishers refusal to publish her "serious" work, Hilst persisted in that subject in the beginning of the 1990's, writing a trilogy: the novels "O Caderno Rosa de Lori Lamby" (1990), "Textos Grotescos" (1990) and "Cartas de um Sedutor" (1991).


"O Caderno Rosa de Lori Lamby", an amused knavery (as the author herself defined), is a first person novel narrated by a 8 year-old girl who writes in her diary her imaginative fantasy about sex, absorbing influences of her father, a writer of erotic short stories. The controversial romance was adapted to theater (with the actress Iara Jamra) and to film by the director Sung Sfai in 2005


Are those the girl's fantasies or ours? Hilda Hilst's marvelous literary construction in this book makes us ask that. The girl seems to be playing with her imagination, mixing reality, pieces of information and fantasy. The excitement is ours not hers:


I told daddy that I like to be licked but it seems that he did not hear me, and if I was able to stay a long time in my little bed with open legs but it seems I am not because it is harmful, and because we have a schedule for that. It is just one hour, when it is more, we earn more money, but it is not everyone that has so much money like that to lick. The young man told me when he comes back he is going to bring me some black torn socks to wear. I asked him to bring me pink socks because I am very much fond of pink and if he does it I will lick his staff for a long time, even without chocolate. He said I was a very pretty little bitch. He wanted also I come back to bed again, but it already had passed a hour and there's a bell when people stayed more than a hour in the bedroom. So he asked to kiss my little hole there behind, I let him do it, he put the tongue in my little hole and I wish he was not putting out his tongue but the bell rang again.


Recently a polemic episode between the director José Celso Martinez Correa and the actor Paulo Autran was in the newspaper Folha de São Paulo. It began when the actor in an interview ("Autran não perdoa ninguém e agrada a todos" , Ilustrada, November 30, 2005) declared that he did not consider as theatre a play which has two actors masturbating on a stage, in reference to the play "Os Sertões" by the director José Celso and his group Uzyna Uzona.


José Celso is a visceral director, courageous, and for that, controversial. If his plays have orgasms, naked actors or not, his performances are always able to turn us head over heels (I have met Dionisius once in one of his plays: "As bacantes").


Paulo Autran is a highly respected actor in Brazil for his work in theatre, movies and television — a canon in the art of acting whose career is already a chapter of the Brazilian theater history in the last 50 years.


The play of José Celso is adapted from a book – Euclides da Cunha's "Os Sertões". It tells the story of the Canudos war, a conflict in the Brazil's country between the recent declared Republic and a group of religious people led by Antonio Conselheiro, in the 19th century. Euclides da Cunha was a writer and a reporter and told in the book what he saw and lived.


José Celso answered Autran in the same newspaper (Folha de São Paulo - Réplica: Quem tem medo de masturbação masculina?, December 12, 2005) revealing that although the actor did not see the performance, he is focusing only on the "masturbation taboo":


(...) a short time of an orgasm, about 3 minutes of a 6 hours play: "A Luta 2". Mariano Matos, a great young actor, creates a work of art with the part of a soldier who is waking up in the middle of a dream of love, attacked by gunmen and being shot in the moment of his "petite mort", the orgasm.


Nowadays, sexual subjects on stage just to shock the audience is a naive choice. Definitely that was not Ze Celso's intention. He explains:


Jean Genet's divine masturbation, for us, is totem. It is the basis of the work of a free actor of genius subtext, who knows how to provoke his imagination from his deep and free pleasures, dreams and desires. Who knows how to practice prayer, meditation, masturbation, begin a self-knowledge. Knowledge about desire, about how to give a spirit, a soul to his/her own Eros, how to make through his body the body of an acting role, and give to it the most precious, the electric tension, for that the part should stay alive, free, theatrical, tactile, and sensual to the audience.


But the director takes a risky road, creating doubt in the audience. Any sexual metaphor in a world where people's eyes and senses are accustomed to the same mass message paralyses our sensibility to the recognition of beauty/sense that can be raised. The challenge is to inaugurate new meanings for that without meaning.


One who does not follow that dubious road is the director Ana Kfouri. In her play "Volúpia" staged in Brazil between 1998 and 1999, the director started from texts by diverse authors who had written about sex to create a strong performance that was extraordinary. "Volúpia" is part of the seven deadly sins that the director is going to stage. "Gula" and "Preguiça" have already been played. "Ira" is the project for 2007.


Now Kfouri is staging "Esfincter", until January 29th in Sesc Copacabana, RJ, with the Companhia Teatral do Movimento. From the texts " Lettre aux acteurs" and "Le Discours aux Animaux" by the French author Valère Novarina, Kfouri's play serves to the pupose of the author: theater is a place where words and speech are considered as a body, but not that expressive one, otherwise it is a bloody body moving by its own internal mechanism.


The director says that there is the motive to intensify the artist-audience relationship and create communication between them. Certainly, she wants to communicate "a certain feeling of reality."


In Kfouri's plays naked actors on stage and heartbreaking words are procedures, as Henry Miller has said: "the deliberate element that is found [in art] nothing has to do with the sexual excitement, as in pornography. (...) His aim is to awake, to communicate a feeling of reality".


Art must bring the expression of a feeling. It is a place where we are able to live an experience by provoking all senses at once, even if it is talking about politics or ordinary duties.


As Pablo Picasso said:


"Art is never chaste. It ought to be forbidden to ignorant innocents, never allowed into contact with those not sufficiently prepared. Yes, art is dangerous. Where it is chaste, it is not art. "


Or if it does not excite the body to move on through the provocation and perception of senses, it is not art worthy of its own name.




©2006 Andréa Carvalho Stark, all rights reserved
ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA Scene4 International magazine of arts and media em fevereiro de 2006. Disponível em  http://www.scene4.com/archivesqv6/feb-2006/html/carvalhofeb06.html


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