Meu querido Pássaro Verde,






O futuro é coisa que nunca fica. O desejo é um chegar e sair sem desejos de partida. E porque isso é uma rima? Porque é música das suas asas se abrindo e batendo no voo longínquo. Querido Pássaro Verde, ficou um gosto de falta, desses quando se prepara o roteiro de uma história mas se perde o rascunho dela e aí tem que se escrever tudo de novo, vencendo a própria preguiça e o sentimento de frustração. Dentes se preparavam para triturar a coisa, digerir mas nada aconteceu. Fingi que coisa não havia, fingi ser imaginação minha mas nos dois sabemos que não, pois a coisa existia ali cheia de possibilidades, mesmo que restritas.

As horas que se seguiram foram de uma solidão atroz, atrás do pássaro, esperando ele pousar coincidentemente, acidentalmente sobre minhas pernas, no vão entre elas, dentro do vão entre elas, batendo suas asas e me levando a voar.

O desejo é um desencantamento que escapa pelas beiras.

Não quero isso, deixo que ele escape e tome outro voo, eu digo “vá, pode ir”, mas não, ele insiste em ficar. Qualquer dia vou sem pena arrancá-lo a força, a fórceps, como se arrancasse as penas do meu querido Pássaro Verde, o deixarei nu em pele até que ele seque. Chorei porque achar isso é duro à beça, é pesado, difícil carregar-me. Então fico eu assim, de então em então, perdendo o sono e mandando cartas via pombo correio tonto a um Pássaro Verde que tem medo de voar. Daqui a pouco amanhece e ele começa a cantar no topo da árvore de onde tudo vê sem jamais mexer, que dirá tocar. Ninguém vem, nada acontece e o sol nasce mais uma vez. E piu,piu,piu, piu,piu. E bla, bla, bla, bla, bla.

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