A TARTARUGA DE DARWIN


Não temos tido muita ânima para escrever sobre os espetáculos atuais nos palcos cariocas. Primeiro, não conseguimos entender esses espetáculos cujo elenco precisa usar  microfone. E para quem sabe de Sarah Berhnardt, Rosina Stoltz, Augusta Candiani, Dona Ludovina Soares da Costa, Dona Antonina Marquelou, João Caetano e Vasques só se contenta com Dona Fernanda Montenegro, Dona Renata Sorrah, Seu Sergio Britto, Dona Natalia Thimberg mais outros poucos, e agora Dona Cristina Pereira.

Cristina Pereira entra na nossa lista depois de assistirmos a sua TARTARUGA DE DARWIN, em cartaz no Shopping da Gávea, 60 reais mas vale cada moeda.

Sobre a peça, comecemos pelo que não gostamos: não, não gostamos daquela esposa dona de casa. Mexeu com nossos brios feministas, sim, apesar de eu ser um homem, sempre incentivei a emancipação das mulheres em minha casa quando isso era um crime de lesa pátria. Não queremos dizer que detestamos o trabalho da atriz Vera Fajardo. É justamente o contrário: a esposa Beth de Vera é tão sincera que ficamos detestando a Beth, a personagem. Por que tanta gente não conhece a Dona Vera Fajardo? Também odiamos o médico de Rafael Ponzi e o historiador de Paulo Betti pelos mesmos motivos.

Ultimamente temos odiado certos atores em cena e odiar personagens de teatro foi realmente uma sensação de que temos de ter esperanças e tolerância com o teatro carioca.

Nenhum ator usa microfone em cena, e no atual estado de coisas, isso já indica o nível superior do elenco e da encenação.

Mas a estrela da noite foi a Tartaruga, quero dizer, Cristina Pereira que comemora 40 anos de carreira com esse personagem. Escolha perfeita. Cristina lança todo seu gênio naquele casco de tartaruga. Nós o vimos e ficamos também espantados. Quisemos também levar a Tartaruga para nossa casa para conversar e saber dela como aconteceram as coisas que lemos nos livros. Mas com um enorme carinho. Abriríamos nossa biblioteca, nosso vinho mais antigo, nosso baú de memórias também, e leríamos Petrarca e Shakespeare ao som de Bach pelo cello de Rostropovich.

A peça é uma fábula e, como lembramos das nossas aulas da escola, sabemos que a fábula sempre tem uma moral. Qual a moral da Tartaruga? Adaptar-se! E isso nem sempre quer dizer evolução.

A Tartaruga, como nós, também testemunhou diversos eventos da história contemporânea, a diferença é que ela da européia e nós da brasileira. A Tartaruga se chama Harriet, depois que descobriu ser fêmea, é a que Charles Darwin trouxe das Ilhas Galápagos. Para salvar um menino judeu na Segunda Guerra começou a falar, para proteger-se começou a andar sobre dois pés, enfim, a história fez a Tartaruga adaptar-se ao seu meio, comprovando a teoria de Charles. E evoluir para ser humano se prova uma involução. Mas entre Tartaruga e gente ela foi levando a vida. Como diz, às vezes ser Tartaruga era melhor que ser gente, às vezes ser gente era melhor, mas ser tartaruga na Segunda Guerra era sempre melhor que ser judeu.

A Tartaruga se torna objeto de desejo de um historiador (Paulo Betti) e de um médico (Rafael Ponzi). Ciência e história lutando por primazias, e bebendo da mesma fonte mas com suas vaidades peculiares. E Harriet? Ninguém se importa. É alvo de cobiça e ambição até da mulher insossa e ciumenta e chata do historiador.

Harriet faz 200 anos em cena, é esse o desfecho da peça. E o final não podemos contar, como nas boas obras, o final é surpreendente e não cometeríamos a desinteligência de estragar a noite de teatro de nossos leitores. Seria um crime.

Voltamos para casa pensando em Harriet e na Internet, nos jogos eletrônicos que seduzem as crianças mais do que os livros, na imagem, na sedução das amizades e relações em redes de relacionamento, nos cataclismos, terremotos e enchentes. A que e como iremos nos adaptar? O que está surgindo sob nossos olhos e que ainda não percebemos?

A Tartaruga de Darwin é dirigida por Paulo Betti e escrita pelo espanhol Juan Mayorga. Paulo Betti todos nós conhecemos mas do maravilhoso autor nunca tínhamos ouvido falar. Fomos procurar na biblioteca moderna: o moço nasceu em 1965 em Madrid, Espanha. Se formou em filosofia e matemática, especializou-se em filosofia da história e da estética com tese sobre Walter Benjamin. É autor de artigos sobre Lope de Vega, Artaud, Dürrenmatt, Heiner Müller, Valère Novarina e José Sanchis Sinisterra. É membro do conselho de redação da revista “Primer Acto”. É professor de dramaturgia e história das ideias na Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid. Em 1989, começou a escrever para teatro. E quando ganhou o prêmio Valle-Inclán disse: "Prefiero equivocarme por ambicioso que por exigirme poco" (“Prefiro me enganar por ambição do que exigir pouco de mim”)

O moço, enfim, é um dos nossos, entre a academia e o botequim, entre a história e as letras, os palcos e a filosofia. Sabe do que escreve e sabe escrever. E ficamos pensando como o teatro perde quando se afasta da literatura, do texto, da palavra, da filosofia, da história e da cultura como vemos muito por aí.

Juan Mayorga, o escritor, revelou um segredo. E também Cristina Pereira, a atriz, com sua tartaruga verbal, corporal e excitante.

EM qual o segredo os dois se encontram? Pense na moral da peça. Assista e nos diga depois.

Sem querer ofender ninguém, nem ser dono de verdades, para nós é o melhor espetáculo em cartaz no atual teatro carioca.

A TARTARUGA DE DARWIN
Direção: Paulo Betti e Rafael Ponzi
TEXTO DE JUAN MAYORGA
com Cristina Pereira, Paulo Betti, Rafael Ponzi e Vera Fajardo
3ªf e 4a f, às 21h
Teatro dos Quatro / Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52/2º piso, Gávea / RJ
Tradução: Rafael Ponzi
Cenário e Figurino: Letícia Ponzi
Iluminação: Aurélio de Simoni
Trilha Sonora: Vera Fajardo
Preparação Corporal: Carmen Luz
Preparação Vocal: Verônica Machado
Projeto Gráfico: Jair de Souza Design
Assistência de Direção: Anderson Cunha
Aderecista: Pamela Ueda
Visagista: Emilio Reck
Realização: SESC Rio Casa da Gávea

COMO NÃO CONSEGUIMOS VÍDEOS DA PEÇA, POSTAMOS AQUI UMA NOVA PEÇA DE JUAN MAYORGA - PARA APRENDER JUNTO, EM VEZ DE CONTINUARMOS A ENCENAR TRADUÇÕES.



AQUI Juan Mayorga fala sobre teatro:

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