SUTURA E VERBO: FLORBELA ESPANCA NO TEATRO





 Uma leitura sobre  a peça "Desalinho"

Para os conhecedores da obra de Florbela Espanca uma peça sobre a poetisa pode parecer uma chance para estabelecer relações entre a literatura e o teatro e como esses dois campos se alimentam um do outro esteticamente. Para quem não a conhece  seria   a peça uma maneira de conhecê-la. O espectador mais comum, aquele mais interessante, aquele que nada espera de um espetáculo, talvez tenha sido levado ao teatro somente pela história que se anunciou - a de um amor impossível entre dois irmãos - ou a perspectiva de experimentar o drama ou o melodrama partindo dos versos de amor e dor da portuguesa que se suicidou aos 36 anos em 1930.

Para todos esses espectadores restou uma certa dose de surpresa depois de assistirem à “Desalinho”, peça de autoria de Marcia Zanelatto com Isaac Bernat na direção, que esteve no SESC Copacabana e mais recentemente cumpriu uma temporada na Sede das Cias, na Lapa, Rio de Janeiro. Essa dose de surpresa é logo dissolvida em um encantamento ofegante.

Vivemos tempos difíceis na cidade e no mundo, portanto, o teatro talvez tenha a função de nos agitar tirando nossa sensibilidade de um certo marasmo anestésico e, assim, atiçar paixões para que possamos seguir em frente. Nisto a peça “Desalinho” parece que cumpre um objetivo, ficamos ternos por Florbela, temos vontade de pegá-la no colo e de desatar-lhe as mãos da camisa de força. Entendemos que a loucura da poeta é mais do que qualquer psiquiatria poderia amenizar. Entendemos Florbela e entramos em comunhão com ela naquela busca por liberdade. Ela desloca um certo sentido do que temos.

Estas são sensações abstratas que muitas vezes vieram aparecendo enquanto assistíamos ao espetáculo. Sensações que podem ser de todos ou de ninguém mais. O que é de todos é o trabalho de três atores em cena (Gabriel Vaz, Carolina Ferman  e Kelzy Ecard), especialmente das duas atrizes que se espelham,  se jogam e jogam entre si, que soltam lençóis juntas numa das mais belas cenas da peça. É de todos também um texto altamente poético sem ser piegas e uma direção que soube criar um espírito estético de uma poesia essencial e mínima sem ser melosa ou apelar para o fácil exagero. Seria fatal. A peça alcança um equilíbrio dessas forças entre palavra e gesto e isso é mesmo de todos os espectadores.

Pouco ficará o espectador sabendo da vida ou da obra de Florbela Espanca, a peça não é uma récita de versos da autora muito menos uma colagem com fins de biografias dramáticas. Parte sim de uma essência entre a interpretação de vida e obra, mas que não é uma coisa nem outra.  Uma obra da arte cujo mote é a história não comprovada e muito difundida de que a poetisa teria se apaixonado pelo seu irmão, ambos frutos de uma relação conturbada entre seu pai e mãe (seu pai teve dois filhos com a empregada da casa adotados por Mariana, sua esposa real, que não podia lhe dar herdeiros). Mas em certo momento podemos até pensar, será mesmo essa a Florbela? Ela mesmo diz que se chama Mariana, mas confessa que é a famosa Florbela Espanca. Ela escreve versos e os mostra para a enfermeira que se tornou sua cúmplice. Será mesmo Florbela? Ela lembra de ter matado seu irmão, seria essa a projeção psicótica de morte de um amor? Seria essa a Mariana, sua mãe de criação? Ou uma moça qualquer encarcerada por um amor impossível? Será Florbela uma projeção da própria enfermeira robotizada e obediente? Será Florbela um desejo da enfermeira que de tanto lidar com a loucura encontra na loucura seu único remédio?  São várias as perguntas. Não importa. Todas essas mulheres são aquela ali no palco buscando simplesmente a liberdade que lhes pertence. Um tipo de liberdade que só a arte é capaz de garantir.

Se Florbela Espanca expressou em seus versos todo o desalinho de sua alma atormentada desde a mais tenra idade, se lemos nos seus versos aquele mesmo desassossego de Pessoa, a peça é como uma sutura, pois, mais do que falar de feridas abertas, é  capacidade do teatro o fechar das nossas próprias.  Cada um, como Florbela, tem a sua própria linha.


Foto: Virginia Boechat 
Por Andrea Carvalho Stark, julho 2014.

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